As aparências enganam



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É engraçado como temos o hábito de analisar e prejulgar as pessoas pelas aparências, não é verdade? Se vemos alguém muito bem vestido ou com o carro do ano achamos que a pessoa está bem de vida ou que está  financeiramente melhor que você.  Se conhecemos alguém e,  naquele momento, a pessoa nos trata muito bem, a definimos como uma pessoa de bons modos. Se ocorre o contrário  e a pessoa não é simpática ou atenciosa como deveria, achamos que  é mal-educada ou grosseira.  Porém, se  ela se mostra falante,  é tida como extrovertida;  se está calada, é introvertida;  entre outras constatações instantâneas que normalmente se faz.

Afirmam, os entendidos em psicologia, que são necessários apenas três segundos, três segundos somente para se ter uma opinião formada sobre alguém, seja ela verdadeira ou não, ou seja, são colocados rótulos nas pessoas, mesmo sem elas saberem. Mediante determinada análise que é feita de alguém, garante-se ou não sua admissão, o que em geral, é muito comum em seleção de emprego. Por  isso, atenção à forma como se comporta, se veste, fala e age, porque, muitas vezes, criamos uma imagem diferente do que realmente somos aos outros e, se, na entrevista você  cometer alguma falha ou deslize, saiba que poderá colocar sua contratação em risco.

Na verdade, leva-se muito tempo, anos até, para alguém nos conhecer bem e saber quais são nossos pontos fortes e fracos para só assim,  formar um relacionamento forte, sincero e duradouro. Além disso, estamos sempre tentando nos conhecer melhor, fazemos sempre auto-críticas, auto-análises e estamos em constante processo de evolução e mudança. Muitas vezes, uma maneira de ser ou um comportamento que você tinha há alguns anos, pode ter se alterado completamente para melhor ou pior.

Outros clichês como “nem tudo o que reluz é ouro”; “parece mas não é”, entre outros, que costumamos usar para definir o que sentimos quando estamos diante de algo ou alguém,  têm o mesmo sentido para o que quero discutir.

Eu me lembro bem quando fui trabalhar em uma empresa onde, aparentemente, todas as secretárias tinham o mesmo nível educacional e salarial, até porque executavam o mesmo tido de serviço e trabalhavam para executivos do mesmo nível. Porém, havia uma secretária que se vestia muito mal, tornava-se gritante o jeito como se apresentava no escritório se a comparássemos com as outras secretárias.

Não usava maquiagem, não se preocupava com a aparência e não se vestia bem.  Além disso, raramente aparecia com alguma peça de vestimenta nova.  As outras secretárias se indignavam e se incomodavam muito com aquilo. Comentavam comigo que ela não deveria ser assim, que a empresa era de grande porte, que oferecia bons salários e ótimos benefícios para os funcionários se apresentarem bem na empresa perante outros funcionários e clientes.  Diziam, as más línguas, que até as recepcionistas se vestiam melhor que ela.

Algumas secretárias  me disseram que gastavam uma boa parte de seu salário em roupas, maquiagem, cuidados pessoais para se apresentarem semmpre elegantes no trabalho, mesmo embora tendo de gastar até mais do que deveriam  e que,  por isso, aquela secretária deveria fazer o mesmo ou, pelo menos, o mínimo exigido pela profissão.

Como disse, era nova na empresa e não conhecia bem as outras secretárias. O único comentário que fiz era que talvez ela tivesse alguma dívida, despesas com a escola dos filhos, contas a pagar ou talvez o marido estivesse desempregado e ela era obrigada a se responsabilizar por todas as despesas da casa e que, como ela, também achava estranho ela ter aquela aparência.  Depois que eu fiz tal comentário, a secretária me disse que isso era difícil de acontecer, até porque ela era uma funcionária antiga e agia assim há muito tempo.

Soube, quase dois anos depois, por essa mesma secretária, quando eu nem trabalhava mais lá, que a tal secretária desleixada, como era chamada, realmente tinha de sustentar a casa porque o marido não trabalhava e vivia de trabalhos temporários.

Por isso, mesmo que ela quisesse, não poderia se dar ao luxo de gastar o salário com ela. Com certeza, ela se sentia muito mal com tal situação, porém não tinha outra alternativa.

Talvez, os  julgamentos que fazemos das pessoas façam parte do nosso inconsciente coletivo ou mesmo a ideia ou o desejo de fantasiarmos uma característica que gostaríamos que tal pessoa tivesse e não tem.

Prejulgamos  a todo o instante as pessoas pela beleza ou ausência dela, pela competência ou não, pela inteligência ou limitação, pelo padrão social e econômico, por sua opção sexual, pelas crenças e religiões, e, principalmente pela cor e raça.

Acho que tudo depende do estado de espírito da pessoa naquele instante e das experiências que se tem com ela.  Eu mesma já me enganei inúmeras vezes e muitas pessoas já se enganaram comigo. Talvez, com você também já deve ter acontecido algo semelhante e devem ter feito um juízo errado da sua pessoa.

Acredito que o julgamento mais sensato e eficaz  é o de caráter e o nível de empatia que essas pessoas manifestam pelos outros.

Pude comprovar isso durante os anos em que trabalhei em diversas empresas. Conheci inúmeras pessoas, desde o mais alto escalão até funcionários com cargos mais simples e salários mais modestos. Quando as conhecia tinha uma impressão delas, boa ou ruim, entretanto, depois de algum tempo de convivência,  minha análise sobre aquelas pessoas  havia mudado drasticamente para melhor ou pior.

É por isso que, muitas vezes,  guardava tal percepção só para mim e não comentava com ninguém, até para não cometer nenhuma injustiça.

Às vezes,  passamos uma imagem de ser de um jeito que não gostaríamos de ser ou mesmo cuja imagem não condiz com a realidade. Um exemplo prático: uma colega de trabalho sabe de um problema seu que você mesma a confidenciou em um momento de desabafo e fragilidade e, a partir daí, ela tenta sempre dar conselhos ou dicas para você resolvê-lo, mesmo sem você pedir.  O que você acharia dessa pessoa?

Uns acharão que ela é intrometida por se meter na vida dos outros; outros, porém, perceberão que ela gosta muito dessa colega e só quer ajudar com palavras de auxílio e conforto.

Tive uma outra experiência em outra empresa em que uma gerente se vestia muito bem, estava sempre com a aparência impecável, morava em um bairro nobre, embora em apartamento alugado, tinha carro importado, mesmo não sendo novo, usava telefone celular, em uma época em que somente altos executivos e pessoas ricas poderiam ter esse privilégio,  frequentava bons restaurantes e lugares da moda, viajava quase todo final de semana com amigos e usava jóias caras. Achava engraçado porque se vestia até melhor do que muitas executivas com cargos e salários melhores que o dela.  Por isso, pensava que ela deveria ganhar bem e que, por ser solteira e sem filhos, não se importava em gastar.

Depois de algum tempo, soube pela secretária dela, que essa gerente havia pedido a ela um dinheiro emprestado para cobrir despesas com o cheque especial, senão seu crédito poderia ser cortado. Além disso, ela precisaria de um dinheiro extra, em caráter de urgência, para ajudar um irmão doente com despesas de remédios  e afins.

Naquele dia, a secretária comentou com ela como poderia não ter dinheiro e estar endividada porque parecia ganhar bem e ter um padrão de vida muito bom e bem superior à maioria dos funcionários dali.

Pois, acreditem, a tal gerente, muito sem graça e com toda a sinceridade que possam imaginar, disse,  em tom revelador, que tinha aquele padrão de vida e vivia daquele jeito porque seus amigos eram executivos de alto escalão, tinham bons salários e precisava acompanhar o ritmo e o de padrão de vida deles para se manter no mesmo meio social e poder ter a amizade e o apoio deles caso precisasse de um favor ou uma recolocação profissional.

Depois que soube disso, comecei a perceber que, realmente, as pessoas se unem aos seus pares por questões de necessidade ou mesmo de sobrevivência no mundo empresarial. Raramente fazem isso por afinidade ou amizade.  Dificilmente você vê uma secretária almoçando com uma recepcionista, ou mesmo tendo algum tipo de relacionamento que não seja alguém do seu círculo. Em geral, elas almoçam com secretárias do mesmo nível delas, ou seja, gerência com gerência, diretoria com diretoria, presidência com vice-presidência. Inclusive, os próprios diretores raramente são vistos circulando com assistentes ou gerentes, em geral, preferem se aproximar de pessoas com cargos iguais ou superiores aos que possuem.

Certa vez,  uma secretária amiga minha me disse que gostava de ter amizade com pessoas cultas e bem de vida porque era como se ela fizesse parte daquele mundo também e que preferia se relacionar com pessoas do mesmo nível dela ou superior, nunca inferior. Era uma forma dela se sentir importante e vaidosa por ter amigos influentes.

Existem também o papel dos chefes e superiores que, muitas vezes se mostram aos clientes e demais funcionários da empresa como uma pessoa educada, acessível e equilibrada, porém, quando está em contato direto com sua secretária e seus subordinados diretos, mostra-se outra pessoa. Muitas vezes, é arrogante, mal-educado, insensível e extremamente exigente. O contrário também acontece. Às vezes, pinta-se a pessoa de uma forma tão feia e depois verifica-se  perante seus funcionários e pessoas próximas que, determinada imagem que se faz daquele executivo está deturpada por pura lenda e fantasia.

Também me recordo de um funcionário que tinha um bom relacionamento com todos na empresa. Porém, quando pediu demissão para ir trabalhar em outra empresa, mal conseguiu se despedir dos funcionários. Muitos diziam que estavam em reunião, outros muito ocupados preparando relatórios e outros ainda, demoravam-se mais ao telefone para não ter de se despedir. Afinal, como muitos diriam, ele já era carta fora do baralho e, para muitos, o relacionamento com ele fora da empresa não serviria mais para nada.

Afinal, ninguém é tão ingênuo ao ponto de não saber que nas empresas existem interesses e os relacionamentos de amizade e profissionais giram sim, em torno de interesses próprios.

A verdade sobre essa situação irá depender da pessoa e com quem ela se relaciona.  Já tive essa experiência estando dos dois lados: umas vezes minha sugestão foi ouvida, já em outras, tive de parar com aquele comportamento porque a pessoa não estava interessada em ajuda.  Na situação contrária, também gostei de ouvir as sugestões ou mesmo críticas e, em outras, também pedi para a pessoa se calar e não se envolver.

Acho que o segredo para lidarmos bem com esses impasses é usar de sinceridade e sempre perguntar à pessoa se ela quer ajuda, se precisa de conselhos ou dicas para resolver seus problemas. Só assim, não seremos inconvenientes e, teremos certeza, de que alquela pessoa irá aproveitar bem nossas sugestões. Caso contrário, será como falar com as paredes, embora, há quem diga, que elas têm ouvidos.

Existem funcionários que conseguem disfarçar algum problema grave ou pessoal que estejam passando. Muitos chegam sorrindo e se despedem, mais eufóricos ainda, mesmo depois de um longo dia de trabalho e ninguém percebe nada. Outros, porém, demonstram sua fragilidade e insegurança nos banheiros ou entre amigos.  Tudo irá depender do nível de discrição e controle emocional de cada pessoa em expor seus dilemas e vida pessoal no ambiente de trabalho.

Com a experiência e o tempo, aprendi a agir de modo diferente, o que me ajudou muito a me comportar e a me relacionar melhor com as pessoas. Por outro lado, também aprendi a fazer com que certas pessoas não se envolvessem em problemas meus quando não eram solicitadas, mesmo que fossem pessoas próximas ou amigos e com a melhor das intenções.

Nas empresas encontramos pessoas que são totalmente diferentes de nós, outras parecidas ou até muito semelhantes, porém,  muito poucas,  são consideradas pessoas especiais. Com certeza, todas servirão de base para nosso aprendizado e vale a pena aproveitar essa oportunidade que a vida nos dá.

É fato que não se pode ser ou agir diferentemente do que se é. Ninguém consegue enganar tanta gente por tanto tempo e, essas pessoas sofrem porque precisam manter um comportamento diferente do que são. Enfim, vivem uma mentira, se enganam para enganar os outros, o que faz com que sejam pessoas diferentes do que realmente são quando estão fora do ambiente de trabalho.

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Comentários (6)

rosimeire linsoutubro 19th, 2011 - 9:17

Quando você disse que as aparências enganam significa que nem tudo que se vê é real ou poder ser falta do que fazer, por exemplo. Beijos.
Muito obrigada.

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Mirian Nasseroutubro 20th, 2011 - 22:09

Olá, Rosimeire!

Realmente quis dizer que muitas vezes aquilo que vemos não condiz com a realidade. É ilusão ou puro engano e, com isso, falhamos no julgamento. Por exemplo, se você se deparar com uma pessoa dirigindo um carro de luxo, achará que ele é rico, porém, muitas vezes pode ser apenas o motorista. Eu já soube de um caso de um assaltante que roubou o relógio de um motorista que estava dirigindo um carro importado de luxo porque achava que era um relógio caro e de ouro. Porém, o ladrão roubou um relógio simples, dourado e barato do motorista do carro. O oposto também ocorre. Você pode olhar pessoas na rua e achar que são ricas ou pobres somente pelas roupas que vestem e isso também é pura ilusão. Quando não conhecemos a fundo alguém é muito difícil avaliá-la com exatidão em apenas alguns segundos. Porém, é o que fazemos frequentemente. Outro dia uma conhecida me encontrou no supermercado e me viu comprando congelados. Ela me perguntou se não gostava de cozinhar. Disse que cozinhava diariamente, mas justamente naquele dia estava comprando congelados e enlatados porque não daria tempo de preparar nada para o almoço nem para o jantar. Acredite, não é falta do que fazer! É da natureza do ser humano mesmo se comparar com as outras pessoas.
Um abraço.
Mirian

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Jéssicaabril 19th, 2012 - 16:24

Pura realidade! Adorei!

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Mirian Nasserabril 19th, 2012 - 16:54

Olá, Jéssica!

Muito obrigada pela sua participação e elogio.
Um abraço.
Mirian

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carinamaio 10th, 2012 - 14:58

Gostei muito do artigo. Foi uma forma de entender e aprender mais, não só sobre secretária, mas em situações do dia a dia. Às vezes, faço criticas dos meus próprios atos. No momento, não estou conseguindo organizar a minha vida. Sou secretária e estudante. Eu me cobro todos os dias por ter dificuldade de falar, pois sou tímida. Decoro muitas vezes mas na hora fico nervosa e acabo cometendo algumas falhas.

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Mirian Nassermaio 10th, 2012 - 19:09

Olá, Carina!

Muito obrigada pelo seu contato e elogios. A gente costuma cobrar muito de nós mesmos. Eu me cobro sempre mais quando tenho de escrever um texto. Acho que tem de ser melhor que o anterior ou do mesmo nível. Você se cobra por ser tímida, outro, mais extrovertido, se cobra por falar demais, e, por isso, fala bobagens ou assuntos que não deveria comentar, ou seja, torna-se uma pessoa inconveniente. Quem é muito crítico e perfeccionista é assim mesmo. Treinar o que irá falar ajuda muito quando se é tímido, pois já fica com um roteiro pronto na cabeça para falar quando precisar. Você também poderia fazer terapia, participar de cursos de dança ou teatro que iriam lhe ajudar a amenizar ou até curar sua timidez. Talvez seja uma fase apenas ou uma questão de auto-confiança e maturidade. Também já fui muito tímida na adolescência por total insegurança.

Boa sorte!
Mirian

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