Não pareço uma secretária e sim um robô!



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Você acorda cedo, se arruma,  toma ou não um bom café da manhã e parte em direção ao escritório. Muitas vezes, no caminho, fica pensando no trabalho: nas pendências que tem para resolver;  no cliente chato que terá de aguentar; na pauta da reunião que redigirá; no evento importante que precisará acompanhar e, por fim,  na hospedagem e viagem internacional do seu chefe. Tudo para aquela semana.  Apesar de tudo isso, tem de torcer para seu chefe não estar de mau humor  e não descontar os problemas em você.  Ufa, quanta coisa, não é mesmo?  Logo pensa se conseguirá dar conta de tudo com rapidez, disposição e competência.  Afinal de contas você não é um robô, mas muitos pensam que é;  em especial, chefes e equipes.

Parece estranho e até engraçado comentar, mas você já notou que secretária não tem o direito de ficar doente, não pode demonstrar cansaço, esgotamento ou muito menos estresse? Aconteça o que acontecer, a secretária sempre deve estar com um sorriso no rosto, mesmo se estiver com uma grande dor de dente. E, se por um acaso, isso não acontece, ela fica taxada de antipática ou mal-humorada.  Muitas vezes, não é nada disso; ela só está ocupada demais com o trabalho e nem se lembrou de sorrir. Saiba que é a mais pura verdade!

São tantas responsabilidades, tarefas e compromissos que se tem de enfrentar diariamente que é quase impensável admitir que uma secretária possa adoecer, tenha problemas pessoais e familiares ou precise se ausentar do escritório mesmo com toda a carga de trabalho, chefes e equipes que tem para cuidar. Afinal, eles precisam muito de uma secretária, principalmente quando ela tem de resolver as pendências deles que ficaram mal resolvidas ou esquecidas!

Certa vez, estava almoçando no refeitório e meu chefe foi até lá me chamar para realizar um serviço importante. Disse que terminaria de almoçar em alguns minutos e já voltaria para minha sala. Entretanto, ele não concordou e exigiu que eu subisse ao escritório com ele. Quando chegamos lá,  percebi que o assunto urgente e que não poderia esperar era para providenciar hospedagens e passagens internacionais para ele e a família que viajariam em férias dentro de dois meses e que, embora houvesse tempo para providenciar isso, ele queria já reservar tudo para garantir os descontos e bons preços.

Definitivamente, ele poderia sim esperar, não só alguns minutos, como dias para efetuar essa negociação. Fiquei indignada e muito decepcionada com a atitude dele. Depois que concluí toda a transação,  ele nem me agradeceu pelo empenho e saiu logo em seguida para uma reunião de negócios.

Em uma outra ocasião, saí por um momento da sala e fui ao banheiro retocar a maquiagem e pedi a  uma colega secretária que trabalhava ao meu lado para atender minhas ligações. Não demorei nem cinco minutos e quando voltei o departamento estava abandonado e ambos os telefones, tanto o meu quanto o dela, estava tocando sem parar. Logo em seguida apareceu esse mesmo chefe perguntando por que não estava cuidando do departamento e por que havia me ausentado da sala. Respondi naturalmente que havia ido ao banheiro retocar o batom, ainda com o mesmo em mãos. Também comentei que havia deixado outra secretária no departamento para dar assistência enquanto eu não voltasse,  mas, mesmo assim,  ele não gostou da resposta. Será que ele queria que ficasse grudada na cadeira sem poder sair para nada? Sem poder tomar um copo de água, comer, falar com outra secretária, ir ao banheiro, pegar algum documento em outro andar, etc.?

Quando a secretária retornou perguntei a ela onde estava e por que não ficou me aguardando conforme havíamos combinado. Ela respondeu, tranquilamente, que seu chefe a havia chamado e,  por isso,  não ficou me esperando. Pode? Depois dessa resposta não falei mais nada.

Houve também uma outra história que me aconteceu com outro chefe em outra empresa. Eu precisava ir ao médico naquela semana e tive de desmarcar porque meu chefe precisava muito de mim e me pediu para ir em outro dia. Na época, trabalhava sozinha e tinha quatro chefes e nenhuma colega para me ajudar em caso de falta, incidente ou férias.

Pois bem,  remarquei o médico para a semana seguinte no período da tarde, logo após o almoço em um dia que sabia que seria mais tranquilo no escritório.

Acreditem se quiser, mas no dia da consulta, o meu chefe me disse que precisaria novamente da minha ajuda e que não poderia faltar. Mais uma vez,  tive de desmarcar o médico, pois como não era nada grave ou urgente e sim uma consulta de rotina, eu poderia reagendar.

Recebi a benção de ter boa saúde e de nunca precisar faltar ao trabalho por algum motivo grave. Faltava poucas vezes ao ano para ir ao dentista e ao médico realizar exames de rotina.

Depois fiquei refletindo na situação e confesso que fiquei um pouco triste e até decepcionada com meu chefe. Será que todos eram assim? Será que uma secretária não pode faltar, adoecer, ir ao médico ou resolver problemas particulares ou familiares? Embora hajam exceções, muitos chefes não admitem, mas tratam e consideram suas secretárias como verdadeiros robôs que não pensam,  não opinam,  não têm sentimentos e não precisam de respeito ou qualquer tipo de consideração.

Como  fazem com robôs, é fácil se livrar das secretárias quando não correspondem mais ao trabalho esperado. É só trocar por outro, o que muita vezes se torna mais prático, barato e muito mais vantajoso. Vale lembrar que essa prática só serve para chefes que não enxergam a secretária como um ser humano e sim como uma máquina de trabalhar.  Inclusive, até as máquinas precisam de manutenção de vez em quando e por que as secretárias também não podem se cuidar,  fazer check ups para manter e cuidar da saúde, não é mesmo?

Eu me lembro bem de ter tido contato com algumas secretárias que me diziam a mesma coisa. Muitas vezes ficavam doentes e não podiam faltar ao trabalho por causa dos compromissos e por medo da reação do chefe e, enquanto trabalhavam, ninguém notava que estavam doentes, não ofereciam ajuda, muito menos  atenção.

Se ficassem grávidas poderiam estar certas de que, após o período de licença-maternidade garantido por lei, seriam demitidas. Eu mesma pude presenciar dois casos em trabalhos diferentes. Mesmo as secretárias sendo consideradas boas profissionais, eficientes e com algum tempo de casa, foram dispensadas logo após o término da licença. O discurso para a demissão das duas foi parecido: comentaram que seria melhor a nova mamãe  se dedicar ao lar e ao filho porque um bebê exigia muitos cuidados e atenção e a secretária não conseguiria conciliar todas as funções com eficiência como fazia antes. Era como se a empresa estivesse fazendo um favor ou premiando a antiga funcionária com a demissão.

O que é estranho nessa história é que se um gerente ou outro profissional que faz parte da equipe do mesmo chefe fica doente ou tem um problema pessoal para resolver,  tem toda a liberdade e consentimento do chefe para faltar ao trabalho ou mesmo tirar licença por algum período, situação que não acontece com a maioria das secretárias.

Outra situação que é importante comentar é que, na teoria, muitas secretárias são consideradas peças-chave na empresa em que trabalham, tanto pelo RH como pelo chefes e equipes. Geralmente participam de reuniões, dão sugestões, assumem outras responsabilidades de trabalho, são valorizadas e respeitadas igualmente como todos os componentes da equipe, muitas, inclusive, são chamadas até de assistentes.

Porém, na prática, quando um cliente é apresentado à equipe, a secretária é esquecida e quando se comemora alguma conquista importante ou determinada meta é alcançada e o prêmio é a partilha do bônus, uma viagem com acompanhante ou um jantar comemorativo, novamente, a secretária não é lembrada.  Eu, inclusive, já vivi isso.

Como todo ser humano, somos sensíveis, temos problemas físicos e emocionais para tratar e,  muitas vezes, precisamos de uns dias de descanso do trabalho para equilibrar corpo e mente e poder voltar ao trabalho mais alegres, motivadas e disponíveis. Infelizmente, alguns chefes não compreendem isso. Sorte que não são todos os que pensam assim, porém, muitos ainda são relutantes em mudar de ideia.

Embora muitas secretárias não queiram admitir, há um aspecto importante em que tenho de concordar que são várias as que se parecem e se comportam, de forma proposital, como um verdadeiro robô de saia, consequência de todo o descaso e falta de atenção que recebem. É justamente quando se executa o trabalho de forma mecânica. É como se ela  ligasse o piloto-automático às 8h da manhã, parasse para o almoço, para literalmente recarregar as baterias  e o desligasse ao término do expediente, levando-se em conta que não existe um horário pré-estabelecido para isso.

Afinal, robô que se preze aceita tudo e não reclama de nada!  Tudo é feito sem nenhum comprometimento ou qualquer tipo de emoção. Uma notícia boa ou ruim é processada da mesma forma pela secretária-robô, ou seja, não tem nenhuma importância. O que  realmente importa para ela, é o salário que receberá pelo serviço prestado e nada mais, indispensável para sua manutenção e sobrevivência.

Ela tem plena consciência de que é uma máquina que não pode errar, que tem de seguir à risca a programação a qual foi treinada, além de saber de que não faz parte da equipe e sim dos equipamentos da empresa, especialmente os eletrônicos. Seu lema é: sem sentimento não há sofrimento e tenho de concordar que, a secretária que pensa assim, não deixa de ter razão.

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Comentários (11)

Lindamarço 3rd, 2011 - 16:10

Muito bom esse artigo. Sou secretária e sei perfeitamente o quanto é difícil conviver com chefes assim.

Sucesso na carreira.

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Mirian Nassermarço 3rd, 2011 - 20:15

Olá, Linda!

Muito obrigada pelo seu comentário e elogio. Que bom que gostou do artigo. Participe do site sempre que quiser.
Um abraço.
Mirian

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ivone gomesmarço 31st, 2011 - 14:28

Já passei por isso em outra empresa também. Trabalhei 2 anos e meio sem direito a férias. Só tinha férias coletivas no final de ano. Nem horário de almoço que é sagrado eu não tinha, só ia ao refeitório comia e voltava ao trabalho. Meu chefe nunca viu isso. Eu tinha um rádio e ele me ligava às 23h só para perguntar se tinha desmarcado tal reunião, ou para desmarcar alguma reunião. Ir ao médico, nem pensar! Não tinha ninguém para ficar no meu lugar, e ninguém tinha coragem de passar ligação para ele, situação que ele odiava. Por isso, se eu faltasse era o fim. Até que peguei uma forte anemia por não me alimentar direito, emagreci 6 kg e nem percebi, mesmo todos me falando, eu nem ligava.
Estava com anorexia, fiquei internada uns 15 dias. Pedi as contas e fiquei em casa. Acredite se quiser, ele foi me visitar na minha casa e ainda levou presentes, porém, depois de algum tempo, perdi o contato. Às vezes, nos enganamos muito com as pessoas. Ele era um chefe bravo, exigente e muito chato, por isso,
jamais pensei que fosse me visitar em casa e que se preocupava comigo. Talvez se fosse um chefe amigo, talvez nem quissesse saber se estava viva ou morta.

Beijos querida.

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Mirian Nassermarço 31st, 2011 - 18:43

Olá, Ivone!

Fico contente que está lendo meus textos, gostando e se identificando com alguns deles. Sua indicação é muito importante para mim, porque é uma forma de meu trabalho ser divulgado e reconhecido.

Ainda bem que todo esse sofrimento que teve, já passou e está em um emprego melhor e mais satisfeita. Muitas vezes, as pessoas aguentam empregos ruins e não pedem demissão porque têm medo de não conseguir outro emprego. Você é uma prova viva de que é possível sim quando se tem talento e competência. Não há dinheiro que pague nosso bem estar físico e mental. Que seu depoimento sirva de lição e exemplo para quem tiver medo de tomar decisões e se dar o devido valor.
Parabéns e boa sorte!
Mirian

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Rosângelajulho 22nd, 2011 - 20:40

Já trabalhei com o braço direito quebrado, engessado do ombo até os dedos. Detalhe, sou destra. Até aprendi a escrever com a mão esquerda!

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Mirian Nasserjulho 23rd, 2011 - 13:00

Olá, Rosângela!

Obrigada pelo seu contato e depoimento.
Nossa, que coisa incrível! Você, realmente, se superou. Só não entendi porque fez isso. Afinal, estava doente, com problema físico e não precisaria trabalhar por um tempo até se recuperar. Não sei se fez isso por necessidade, imposição ou por iniciativa própria.
Espero que não tenha mais que passar por isso. Foi uma agressão e muito esforço ao seu físico.
Um abraço.
Mirian

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Mirian Nasserjulho 23rd, 2011 - 13:04

Olá, Rosângela!

Muito obrigada pelo seu contato e depoimento.

Nossa, realmente, você se superou. Não sei porque teve de passar por isso. Afinal, estava impossibilitada de trabalhar e merecia repousar até se recuperar bem. Acidentes acontecem! Não sei se fez isso por necessidade, imposição ou por vontade própria. De qualquer forma, espero que não tenha mais de passar por isso, pois foi uma agressão e esforço físico muito intenso.

Um abraço.
Mirian

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Rosângelajulho 26th, 2011 - 17:14

Mirian,
foi uma somatória de necessidade, imposição e lei do menor esforço (menos estresse trabalhar assim do que não ir trabalhar). Com o agravante de estar debilitada emocionalmente para enfrentar o trabalho. Porém, foi um grande aprendizado, tanto para mim como para a outra parte. Nunca mais acontecerá!
Estou adorando seu blog.

Abraços.
Rosângela

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Mirian Nasserjulho 27th, 2011 - 18:21

Olá, Rosângela!

Muito obrigada pelos elogios.
Como comentou, ainda bem que isso nunca mais acontecerá porque é uma agressão física e emocional a qualquer ser humano trabalhar doente e, ainda por cima, não ser valorizado por isso.
Um abraço.

Mirian

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Camilamarço 15th, 2013 - 16:29

Parabéns, pelo texto! Você escreve com clareza e muito bem, mas você me parece muito revoltada com essas palavras. Achei realmente um exagero, você como secretária devia saber que desabafar falando mal do chefe não é a melhor opção. Amo ser secretária, amo essa área e estou fazendo faculdade de secretariado executivo e estagiando e não vejo esse exagero todo, convivo com muitas secretárias e nunca vi nenhuma nesse estado. Penso que você deveria pedir as contas e procurar outro emprego seria a melhor solução. Desculpe, mais esse texto está exagerado. Se você não percebeu, você esta acabando com nossa profissão com essas palavras, pense melhor!

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Mirian Nassermarço 15th, 2013 - 21:59

Olá, Camila! Agradeço seu contato, elogios e interesse no meu site.
Mantenho esse site desde 2010 e atendo a todos que me escrevem tirando dúvidas, pedindo auxílio e esclarecendo assuntos rotineiros da profissão. Tenho dezenas de textos publicados onde descrevo vários acontecimentos ocorridos comigo e com pessoas conhecidas. São textos verídicos e escritos com muita sinceridade, acho que até por isso, você deve ter se chocado.
Esse espaço é democrático e as pessoas têm o direito de expressar o que acham dos textos. Atualmente sou palestrante, consultora e escritora de textos ligados à vida e rotina das secretárias.
Desejo-lhe boa sorte e que tenha sucesso na sua profissão.
Um abraço.
Mirian

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